Exames no prontuário: o custo de digitar à mão e o valor do histórico

Fim de tarde, penúltimo paciente do dia. Ela tem 62 anos e volta com o check-up: quatro folhas de um laboratório e, no celular, o PDF de outro, de um exame que o cardiologista pediu. A consulta tem vinte minutos. Quantos deles vão para olhar para ela, e quantos para passar números do papel para o prontuário?

Quem atende conhece a resposta. E conhece também o que acontece quando não dá tempo: o resultado vira uma imagem anexada ou uma linha resumida, "hemograma sem alterações", e o que era informação vira arquivo.

Digitar é lento, e erra

Um hemograma tem mais de vinte valores. Some lipidograma, glicemia, função renal e tireoide e um check-up comum passa fácil de quarenta números. Digitar tudo, com unidade e referência, é o tipo de tarefa que ninguém faz bem às seis da tarde, com o próximo paciente na sala de espera.

Os números confirmam. Em 2019, pesquisadores americanos publicaram no Journal of the American Medical Informatics Association uma comparação entre quase 7 mil glicemias digitadas à mão no prontuário e o valor que o próprio aparelho havia registrado. 3,7% das digitações estavam erradas. Em 37 casos, a diferença passava de 20%, o suficiente para mudar a leitura do resultado. E era um número por exame. Num hemograma inteiro, as chances de algo sair trocado são bem maiores.

Ninguém ali era descuidado. É que copiar número é exatamente o trabalho em que a atenção humana falha: repetitivo, rápido e sem graça.

O resultado que se perde no caminho

O outro risco é o resultado nem chegar a ser registrado. Uma revisão de 19 estudos, liderada por Joanne Callen e publicada em 2012 no Journal of General Internal Medicine, encontrou serviços em que até 62% dos exames laboratoriais ficavam sem o devido seguimento. Entre as consequências citadas estão diagnósticos perdidos, como câncer, e atrasos no tratamento.

Parte do problema é volume. Em 2016, um estudo no JAMA Internal Medicine contou quase 77 notificações por dia na caixa de entrada do prontuário de médicos da atenção primária americana, cerca de um quinto delas de resultados de exame. Estimou-se que só lidar com isso tomava mais de uma hora por dia.

No consultório brasileiro, a caixa de entrada é outra, mas a bagunça é parecida: papel na pasta, PDF no e-mail, foto no WhatsApp. Cada formato num lugar.

Um número sozinho diz pouco

Existe um motivo clínico, e não só administrativo, para não deixar os exames espalhados. A faixa de referência do laboratório é construída para abranger 95% das pessoas saudáveis. Ela diz se um valor é comum na população, não se ele é normal para aquele paciente.

A creatinina é o exemplo clássico. Em um paciente que sempre teve 0,7 mg/dL, um resultado de 1,1 ainda cabe na faixa de muitos laboratórios. Mas é um aumento de mais de 50%. Não por acaso, os critérios internacionais de lesão renal aguda, do KDIGO, não olham para a faixa de referência: olham para a variação. Um aumento de 0,3 mg/dL em 48 horas, ou um valor 1,5 vez acima do basal em até sete dias, já conta.

O mesmo raciocínio vale para a hemoglobina que cai um pouco a cada coleta, para a glicada que sobe aos poucos, para o TSH que oscila. Cada resultado isolado parece tranquilo. A sequência conta outra história. E só enxerga a sequência quem tem o histórico na mão.

O histórico que o paciente não carrega

O paciente troca de laboratório, de convênio, de cidade. Perde papel, apaga mensagem, troca de celular. Na consulta, a pergunta "e o exame do ano passado?" costuma ter como resposta um "acho que deu normal".

Essa fragmentação custa caro. Um estudo divulgado em 2026 pela Fesaúde e pelo SindHosp, entidades do setor de saúde de São Paulo, estimou que a informação fragmentada desperdiça de R$ 15 bilhões a R$ 25 bilhões por ano no Brasil, incluindo exames de laboratório e de imagem repetidos porque o resultado anterior não estava disponível.

Para o médico, ter o histórico organizado significa pedir menos exame repetido, enxergar a tendência antes de virar problema e conseguir mostrar ao paciente, na tela, o que melhorou. Paciente que vê o próprio colesterol caindo num gráfico entende o tratamento de outro jeito.

Exames no prontuário: o custo de digitar à mão e o valor do histórico

Do arquivo ao histórico, sem digitar

Foi para essa rotina que o MEDC criou os Exames Inteligentes. O resultado entra do jeito que chegou: PDF do laboratório, foto do papel, print, ou o arquivo que o paciente mandou pelo WhatsApp e já está nos anexos do prontuário.

A IA lê cada valor com unidade e referência, identifica a data da coleta e o laboratório e reconhece o mesmo exame com outro nome, como TGO e AST. Na tela de revisão, cada resultado aparece ao lado do anterior, com a variação em porcentagem, e os valores críticos vêm destacados. A IA também pode errar, e por isso nada entra no prontuário sem a sua conferência: você corrige o que precisar e confirma.

Depois disso, o paciente passa a ter um histórico de exames de verdade. As coletas ficam lado a lado, mesmo de laboratórios diferentes, com setas no que está fora da referência e gráficos da evolução de cada exame. O arquivo original continua guardado, a um clique, e, se você quiser, a IA escreve um resumo dos achados da coleta, sem diagnóstico e sem sugerir conduta.

Menos digitação, mais leitura

Médico não estudou anos para copiar número. O valor está em ler os resultados, comparar com o que veio antes e decidir o que fazer. Quando a digitação sai da frente, sobra tempo para isso. E o paciente da quinta-feira à tarde sai da consulta sabendo não só como estão os exames de hoje, mas para onde eles estão indo.

Sobre o autor

Thiago Lage é especialista em Inovação e Tecnologia Aplicadas à Gestão de Consultórios Médicos e escreve sobre posicionamento, tecnologia e decisões estratégicas para médicos que querem construir uma prática particular sólida e sustentável.