Em laboratório, com o quadro clínico completo servido de bandeja, os chatbots de inteligência artificial acertam 95% dos diagnósticos — "quase perfeitos", nas palavras do pesquisador que conduziu o teste. Mas quando pessoas de verdade começam a digitar seus próprios sintomas, do seu jeito, a precisão despenca para 35%. A pesquisa é da Universidade de Oxford e foi revelada numa investigação da BBC News Brasil, assinada por James Gallagher. O motivo por trás dessa queda diz muito sobre por que a consulta médica continua insubstituível.
O estudo que expõe o problema
O Laboratório de Raciocínio com Máquinas da Universidade de Oxford reuniu uma equipe de médicos para criar cenários realistas de saúde — de problemas simples, tratáveis em casa, a emergências que exigem uma ida ao pronto-socorro ou até uma ambulância.
Quando o chatbot recebia o quadro clínico completo, pronto, a precisão foi de 95%. "Eles foram incríveis, de verdade, quase perfeitos", resume o pesquisador Adam Mahdi. Mas a história mudou quando 1,3 mil pessoas foram instruídas a simplesmente conversar com o chatbot, do seu próprio jeito, em busca de diagnóstico. A precisão caiu para 35% — ou seja, duas em cada três pessoas saíram da conversa com diagnóstico ou orientação errados.
Um dos cenários testados descrevia os sintomas de uma hemorragia subaracnoide — um tipo de AVC com sangramento cerebral, emergência que pode matar e exige tratamento hospitalar imediato. Pequenas diferenças na forma como a pessoa descrevia os próprios sintomas levaram o mesmo chatbot a respostas completamente diferentes — em um dos casos, a orientação foi de repouso, quando um sangramento cerebral grave jamais poderia ser tratado assim.
Por que a conversa muda tudo
Para Mahdi, a explicação está em como as pessoas se comunicam: "quando pessoas falam, elas compartilham as informações gradualmente, esquecem coisas e ficam distraídas". Um questionário estruturado não tem esse problema — mas uma conversa solta, sim. E é exatamente assim que a maioria das pessoas usa um chatbot: como uma conversa, não como um formulário.
A clínica geral escocesa Margaret McCartney aponta outro fator, talvez mais sutil: a sensação de proximidade. "Parece que você tem um relacionamento pessoal com o chatbot, enquanto, com uma busca no Google, você entra em um site e há vários pontos ali que dizem se a informação é mais ou menos confiável", explica. Com o chatbot, o efeito é diferente: "parece que você está recebendo esse conselho motivador preparado 'para você'" — o que muda a forma como a resposta é interpretada, mesmo quando ela está errada.
Uma história real
A reportagem da BBC acompanhou o caso de Abi, moradora de Manchester, na Inglaterra, que lida com hipocondria e usa o ChatGPT há cerca de um ano para cuidar da própria saúde. Ela descreve bem os dois lados da experiência.
Em um episódio, achou que estivesse com infecção urinária; o chatbot recomendou procurar um farmacêutico, e ela recebeu a receita adequada — uma orientação correta, dentro do que é permitido no sistema de saúde do Reino Unido. Em outro, escorregou e caiu, batendo as costas numa rocha, com uma dor que começou a se espalhar até o estômago. Ao descrever os sintomas para a IA, ouviu que havia perfurado um órgão e precisava ir a um pronto-socorro imediatamente. Passou três horas numa emergência hospitalar até perceber que não era nada grave. "A IA certamente entendeu errado", resume.
A própria Abi resume o aprendizado: continua usando chatbots, mas recomenda "analisar tudo com cautela" — "eu não confiaria em tudo o que ele disser como a verdade absoluta."
Confiança sem verificação
Um segundo estudo, do Instituto Lundquist de Inovação Biomédica, na Califórnia, testou cinco chatbots populares — Gemini, DeepSeek, Meta AI, ChatGPT e Grok — com perguntas deliberadamente formuladas para induzir desinformação, sobre câncer, vacinas, células-tronco, nutrição e desempenho esportivo. Mais da metade das respostas foi considerada problemática de alguma forma.
Um exemplo citado pela reportagem: questionado sobre quais técnicas de medicina alternativa tratam câncer com sucesso — a resposta certa seria "nenhuma" — um dos chatbots respondeu "naturopatia". O pesquisador Nicholas Tiller explica o padrão: os chatbots "são projetados para fornecer respostas muito confiantes e impositivas, que transmitem um senso de credibilidade", o que faz o usuário presumir que eles sabem do que estão falando.
É praticamente a mesma preocupação levantada por Chris Whitty, principal autoridade médica do governo britânico, à Associação dos Jornalistas Especializados em Medicina: as respostas da IA "não são suficientemente boas" e, com frequência, são "apresentadas com convicção mesmo estando erradas". A própria OpenAI, dona do ChatGPT, reconhece o limite em nota oficial: a ferramenta "deverá ser usada para informação e educação, não para substituir a assistência médica profissional".
Onde o MEDC entra: o número que mais chama atenção nessa pesquisa não é o erro do chatbot — é o salto de 35% para 95% quando alguém organiza a informação de forma completa e estruturada. É exatamente essa organização que uma boa anamnese entrega. O Prontuário Inteligente do MEDC ajuda o médico a documentar a consulta de forma estruturada enquanto ela acontece — reforçando, com tecnologia, o que sempre diferenciou o atendimento clínico de uma conversa qualquer.
Conclusão
O salto de 35% para 95% não é sobre a IA ficar mais inteligente — é sobre a informação chegar completa e organizada, algo que só um exame clínico de verdade garante. Um chatbot depende do que o paciente lembra de contar, na ordem em que lembra; um médico sabe quais perguntas fazer para preencher o que ficou de fora. Como resume a própria OpenAI: informação e educação, sim — diagnóstico e decisão clínica continuam sendo trabalho para quem examina, pergunta e responde por aquilo que recomenda.